O ano de 2026 trouxe uma mudança histórica para o calendário fashion brasileiro. Pela primeira vez, o país passou a contar com dois grandes eventos de moda distribuídos ao longo do ano, com a estreia do Rio Fashion Week no primeiro semestre e a manutenção da tradicional São Paulo Fashion Week, que neste ciclo migrou para o mês de outubro. A novidade reorganizou a lógica que o mercado nacional seguia havia décadas e ampliou o espaço de visibilidade para estilistas brasileiros dentro e fora do país. Produzido pela IMM, o mesmo grupo responsável pelo SPFW, o Rio Fashion Week reuniu cerca de 30 desfiles no Pier Mauá, no centro da cidade, com Paulo Borges como diretor criativo à frente do projeto.
A proposta por trás do novo evento carioca vai além de simplesmente somar mais uma semana de moda ao calendário nacional. A intenção declarada da produção é posicionar o Rio de Janeiro como uma espécie de capital simbólica da moda brasileira para o público internacional, explorando a paisagem, a cultura e a identidade da cidade como parte da experiência oferecida a compradores, imprensa e formadores de opinião vindos de fora. Essa estratégia de exportar um imaginário genuinamente brasileiro tem se mostrado eficiente em edições recentes, à medida que marcas nacionais ganham espaço em vitrines internacionais que antes pareciam distantes da realidade do mercado local.
SPFW celebra 60ª edição com recorde de desfiles
A força do calendário brasileiro também ficou evidente na 60ª edição da São Paulo Fashion Week, que coincidiu com a comemoração dos 30 anos do evento. Foram 40 desfiles ao longo de oito dias, um volume que reforça o peso econômico e cultural da semana paulistana dentro do circuito latino-americano. Segundo dados da Prefeitura de São Paulo, o evento recebe hoje cerca de 100 mil pessoas por edição, das quais 38% são turistas, gerando uma movimentação estimada em R$ 85 milhões na economia municipal. O SPFW já figura entre os quatro eventos que mais atraem visitantes para a capital paulista e ocupa a terceira posição em impacto turístico direto na cidade.
Essa edição também confirmou um conjunto de tendências que devem seguir relevantes ao longo do ano. O laranja dominou as passarelas, aparecendo tanto em tecidos leves e fluidos quanto em peças mais estruturadas, mesmo nas coleções voltadas ao inverno. O contraste clássico entre preto e branco também esteve presente, mas com um tratamento mais delicado, em blazers alfaiataria, saias plissadas e vestidos longos pensados para transitar entre as estações. Outro destaque foi o retorno das formas amplas e do volume balonê, inspirado no universo do balé, valorizando a cintura e criando silhuetas que remetem ao movimento e à leveza do corpo em cena.
Um calendário internacional cada vez mais concentrado em datas estratégicas
Enquanto o Brasil consolida sua posição no cenário global, o calendário internacional de moda para 2026 segue um roteiro que já é tradição no setor, mas com pequenos ajustes de datas relevantes para quem acompanha o mercado de perto. Janeiro abriu o ano com a Pitti Uomo, em Florença, considerada a principal vitrine da moda masculina no mundo, seguida pelas semanas de moda masculina de Milão e Paris, que já apresentaram as coleções de outono e inverno para 2026 e 2027. Na sequência, veio a semana de alta-costura de verão, um dos momentos mais aguardados do calendário por reunir criações exclusivas e peças que raramente chegam ao consumidor final, mas que definem tendências de silhueta e acabamento para as coleções prontas para uso.
Fevereiro e março concentraram as semanas de moda feminina de inverno, com desfiles em Nova York, Londres, Milão e Paris, enquanto junho trouxe de volta os holofotes para o universo masculino, com nova edição da Pitti Uomo e novas apresentações em Milão e Paris voltadas à primavera e ao verão de 2027. Em julho, Paris recebeu novamente a alta-costura, desta vez com as coleções de inverno. Agosto reserva espaço para a Copenhagen Fashion Week, evento que se consolidou como vitrine de marcas emergentes e propostas mais experimentais, enquanto setembro e o início de outubro concentram a temporada feminina de verão, com apresentações simultâneas em Nova York, Londres, Milão e Paris.
O que essas mudanças significam para quem consome moda no dia a dia
Para além do circuito profissional, esse movimento de calendário tem efeito direto sobre o consumidor final. As tendências apresentadas nas passarelas de fevereiro e março, por exemplo, começam a chegar às lojas físicas e ao e-commerce entre seis e oito meses depois, o que explica por que peças vistas hoje nos desfiles internacionais só devem ganhar as vitrines brasileiras na próxima estação de vendas. Entender esse intervalo ajuda o leitor a antecipar decisões de compra e evitar frustrações ao procurar por peças “recém-vistas na passarela” que ainda não chegaram ao varejo nacional.
Além disso, a ascensão de eventos como o Rio Fashion Week amplia as opções de quem deseja acompanhar moda de perto sem depender exclusivamente das semanas internacionais. Com desfiles concentrados no primeiro semestre, o evento carioca cria uma espécie de ponte entre o consumidor brasileiro e as tendências que só seriam vistas meses depois em Paris ou Milão, funcionando como termômetro antecipado do que deve dominar o guarda-roupa nacional na sequência do ano.
Sustentabilidade e identidade nacional ganham espaço nas coleções
Um dos pontos mais comentados entre estilistas e produtores que participaram das edições recentes é o equilíbrio cada vez maior entre inovação e sustentabilidade. As coleções brasileiras têm caminhado para tecidos pensados especificamente para o clima tropical, com foco em conforto térmico e durabilidade, sem abrir mão de identidade visual. Esse movimento reforça o chamado DNA da moda brasileira, marcado por cores solares, técnicas artesanais e cortes que valorizam o corpo em movimento, características que têm ajudado marcas nacionais a se diferenciarem em mercados internacionais saturados de propostas semelhantes.
Se o primeiro semestre já trouxe mudanças estruturais relevantes para o calendário nacional, o segundo semestre deve confirmar se o novo modelo, com dois grandes eventos brasileiros distribuídos ao longo do ano, realmente se consolida como formato permanente. A expectativa do mercado é que a divisão entre Rio e São Paulo continue amadurecendo, oferecendo ao público brasileiro uma cobertura de moda mais constante e menos concentrada em uma única janela anual, o que tende a beneficiar tanto grandes marcas quanto novos estilistas em busca de visibilidade.
Fontes consultadas:
CNN Brasil | ELLE Brasil | Prefeitura de São Paulo | GoWhere Lifestyle