Para Marcello José Abbud, empresário e especialista em soluções ambientais, o lixão nunca foi apenas um problema técnico de destinação de resíduos. É, antes de tudo, uma questão de justiça social. As comunidades que vivem no entorno de lixões a céu aberto concentram alguns dos piores indicadores de saúde, renda e acesso a serviços públicos do país, e essa sobreposição não é coincidência.
O Brasil tinha, até os anos recentes, mais de 3.000 lixões ativos, segundo dados do Panorama dos Resíduos Sólidos da Abrelpe. A Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), sancionada em 2010, estabeleceu a extinção desses locais como meta central, mas os prazos foram sucessivamente postergados e a realidade ainda é dura: centenas de municípios, sobretudo os de menor porte, seguem despejando resíduos sem tratamento adequado em áreas que afetam diretamente populações já fragilizadas.
Entender o impacto social desse cenário é o primeiro passo para construir políticas públicas que vão além da engenharia sanitária. Continue lendo para compreender o que os dados e a experiência prática revelam sobre esse problema.
O que acontece com quem vive perto de um lixão?
As consequências para as comunidades vizinhas a lixões são amplas e se acumulam ao longo do tempo. Segundo Marcello José Abbud, o impacto não se limita ao cheiro insuportável ou à proliferação de vetores como ratos e mosquitos. A contaminação do solo e dos lençóis freáticos compromete a água consumida por famílias que dependem de poços, a fumaça das queimadas irregulares causa doenças respiratórias crônicas e a desvalorização imobiliária prende essas populações em ciclos de pobreza que dificilmente se rompem sem intervenção estruturada.
Estudos epidemiológicos conduzidos em municípios brasileiros com lixões ativos identificaram taxas elevadas de doenças gastrointestinais, dermatológicas e respiratórias em moradores de áreas limítrofes. Crianças e idosos são os grupos mais vulneráveis, mas toda a comunidade é afetada, inclusive pela carga psicossocial de viver em um ambiente degradado, estigmatizado e negligenciado pelo poder público.

Por que a exclusão social e os lixões se retroalimentam?
A relação entre vulnerabilidade e lixão funciona nos dois sentidos. Comunidades pobres têm menos capacidade de resistir à instalação de infraestruturas indesejadas em seu entorno, e a presença do lixão aprofunda a pobreza ao reduzir a qualidade de vida, afastar investimentos e concentrar problemas de saúde pública que sobrecarregam famílias que já têm poucos recursos.
Tal como aponta o diretor da Ecodust Ambiental, Marcello José Abbud, parte significativa das pessoas que vivem nessas áreas também trabalha informalmente com a catação de materiais recicláveis nos próprios lixões, em condições insalubres e sem qualquer proteção social. Esse é um dado que complexifica a equação: fechar um lixão sem oferecer alternativas de geração de renda para essas famílias pode agravar ainda mais a vulnerabilidade no curto prazo. A transição precisa ser planejada com inclusão, e não apenas com maquinário.
O encerramento de lixões como política de saúde pública
A partir do que sugere Marcello José Abbud, a narrativa dominante sobre o fim dos lixões costuma ser construída em torno de indicadores ambientais: toneladas de resíduos desviadas, área recuperada, emissões de metano evitadas. Esses números são importantes, mas o diretor da Ecodust Ambiental defende que o argumento mais poderoso, especialmente para gestores municipais com orçamentos limitados, é o impacto social direto.
Fechar um lixão e implantar uma solução adequada de gestão de resíduos reduz internações hospitalares, diminui a carga sobre o sistema de saúde local e melhora indicadores de desenvolvimento humano em comunidades que historicamente ficaram à margem das políticas de saneamento. Trata-se de investimento com retorno mensurável, e não de gasto.
O peso histórico que os municípios ainda carregam
A persistência dos lixões no Brasil não é resultado de ignorância técnica. É, em grande parte, reflexo de desigualdades estruturais que determinam quem arca com os custos da má gestão de resíduos e quem se beneficia da inércia do sistema. Em síntese, Marcello José Abbud salienta que enquanto o impacto social dos lixões não for tratado com a mesma seriedade que os aspectos técnicos e financeiros, as soluções continuarão chegando tarde demais para as comunidades que mais precisam delas. O encerramento definitivo desses espaços é uma dívida do Estado brasileiro, e seu pagamento precisa vir acompanhado de reparação, não apenas de infraestrutura.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez