Quando o assunto é envelhecer com autonomia, Daugliesi Giacomasi Souza, fundadora da DGdecor, assinala que a arquitetura da casa pode ser uma aliada ou um obstáculo. O Censo 2022 do IBGE registrou aumento expressivo da população idosa no país, e essa mudança demográfica coloca em evidência uma questão ainda pouco discutida nos projetos residenciais: a capacidade dos imóveis de acompanhar as necessidades de quem vive neles ao longo das décadas. Pensar a moradia para todas as fases da vida deixou de ser exceção e passou a ser uma demanda concreta das famílias.
Por que planejar a acessibilidade antes da necessidade?
Em grande parte das residências brasileiras, adaptações para idosos só acontecem depois de uma queda, de uma cirurgia ou de uma limitação de mobilidade já instalada. Nesse momento, as intervenções costumam ser feitas às pressas, com custo maior e resultados nem sempre satisfatórios do ponto de vista funcional e estético. Antecipar essas soluções no projeto evita reformas emergenciais e preserva a harmonia do ambiente.
Daugliesi Giacomasi Souza evidencia que muitas escolhas de acessibilidade passam despercebidas quando integradas desde o início, como portas mais largas, circulação livre entre os cômodos e ausência de desníveis. A norma técnica de acessibilidade NBR 9050, da ABNT, reúne parâmetros que servem de referência para esse tipo de planejamento. Incorporar esses critérios cedo garante conforto hoje e segurança no futuro.
O banheiro como ambiente mais sensível da casa
O banheiro concentra boa parte dos riscos domésticos para pessoas idosas, por reunir superfícies molhadas, espaços reduzidos e movimentos que exigem equilíbrio, como sentar, levantar e entrar no box. Pisos antiderrapantes, barras de apoio bem posicionadas, área de banho sem degrau e iluminação adequada estão entre as medidas mais recomendadas para reduzir a chance de quedas.

Na avaliação de Daugliesi Giacomasi Souza, acessibilidade e beleza não precisam estar em lados opostos. Barras de apoio em acabamentos que conversam com os metais do banheiro, bancos embutidos no box e revestimentos com textura discreta mostram que é possível unir segurança e estética. O desafio está em fugir da aparência hospitalar, que muitas vezes faz os moradores resistirem às adaptações.
Iluminação, contraste e pequenos detalhes que fazem diferença
Com o passar dos anos, a visão tende a perder sensibilidade a contrastes e a se adaptar mais lentamente às mudanças de luz. Por isso, corredores bem iluminados, luzes de balizamento no caminho entre o quarto e o banheiro e interruptores de fácil acesso ganham importância. Cores contrastantes em degraus, bordas de bancadas e batentes também ajudam a identificar desníveis e limites.
Daugliesi Giacomasi Souza pormenoriza outros detalhes que costumam ser esquecidos, como maçanetas do tipo alavanca, tomadas em altura confortável e armários com prateleiras acessíveis sem a necessidade de bancos ou escadas. Cada um desses elementos parece pequeno isoladamente, mas o conjunto define se a pessoa idosa consegue realizar tarefas cotidianas com independência ou se passa a depender de ajuda.
A casa que acompanha todas as gerações
O conceito de desenho universal propõe ambientes que possam ser usados por pessoas de diferentes idades e condições físicas, sem necessidade de adaptações posteriores. Uma casa pensada dessa forma atende tanto a uma criança pequena quanto a um adulto com o pé engessado ou a um avô que passa temporadas com a família, ampliando a vida útil do projeto.
Sob o entendimento de Daugliesi Giacomasi Souza, essa lógica tende a ganhar espaço à medida que mais famílias passam a reunir diferentes gerações sob o mesmo teto. A fundadora da DGdecor reitera que planejar a moradia com esse horizonte é também uma forma de cuidado, permitindo que as pessoas permaneçam em seus lares, cercadas de memórias, pelo maior tempo possível.